Pertinente análise, oportuna discussão:
http://www.primeirosinal.com.br/artigos/os-caminhos-da-improvisa%C3%A7%C3%A3o-teatral
ESPAÇO PARA MINHAS REFLEXÕES, CONSIDERAÇÕES E PROVOCAÇÕES SOBRE DRAMATURGIA E ARTES CÊNICAS
terça-feira, 4 de junho de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
A nova dramaturgia do umbigo
Outro dia fui assistir à
leitura de dois textos dramáticos num evento sobre a produção dramatúrgica
contemporânea.
Em comum, nos dois textos
lidos, é que ambos foram escritos por atores. Mais que isso, porém, outras
similaridades foram sendo reveladas ao longo de cada leitura - não apenas por
mim, mas por vários presentes, como se pôde comprovar depois, no tradicional bate-papo
com os autores, que costuma fechar esse tipo de evento.
O primeiro texto, logo se
viu, era um conto. Um ótimo conto, mas um conto: nunca uma peça teatral. Embora
houvesse dois personagens, apenas um tinha voz e alguma ação. E todo o discurso
da personagem falante era marcado por um tom confessional e pela frontalidade
em relação à plateia. Um ator lia as rubricas que marcavam as mudanças de tempo
e de cena. O que seria a segunda personagem, entrou mudo e saiu calado, sem
dizer uma só palavra. Não havia diálogos. Não havia contracena: lateralidade
zero.
Apreciei a leitura como um
leitor lê um livro. Ou como uma criança a quem a mãe ou o pai lê histórias para
dormir. Por vezes, até fechei os olhos e preferi apenas ouvir o som do que era dito
– já que eram mesmo só rubricas intercaladas com longos solilóquios da
protagonista.
Uma fala da personagem
falante me chamou a atenção: “Eu poderia protagonizar eu mesma!”. E foi o que
fez a autora, sendo atriz e protagonista do seu próprio texto.
A segunda leitura seguiu a
mesma linha: texto confessional, só que com um tom mais memorialístico, recheado
de lembranças da infância do protagonista e com progressão temporal da
narrativa, dos tempos de menino à juventude. Havia alguns diálogos esporádicos,
mas o que prevalecia mesmo era o discurso da personagem central, suas memórias
e sua minuciosa descrição de acontecimentos passados e de personagens que são
apenas referidos na narrativa. O
protagonista masculino era o narrador e, também, todas as personagens masculinas
ocasionalmente necessárias na composição dos diálogos que ponteavam a narrativa.
Outro belo conto: não dramaturgia
– ou, pelo menos, não o que eu entendo como tal.
Tudo bem: alguém vai dizer
que minhas ideias sobre dramaturgia são conservadoras, ultrapassadas ou
caretas. Ou que eu não estou sintonizado com as novas tendências do teatro
contemporâneo. Podem até me acusar de ir
pouco ao teatro e que, por isso, não sei o que estou dizendo.
Pode ser – sei lá.
Mas fiz a opção de ser fiel a
alguns princípios e um deles é não me tornar refém de tendências, não agir nem
pensar maria-vai-com-as-outrasmente. Então, vou na lata.
DRAMATURGIA DO UMBIGO Pude observar – ou apenas confirmar
o que já detectara em outras ocasiões – que o ator que escreve, nunca escreve
para outro ator, mas, invariavelmente, escreve para si próprio. Falta-lhe o
desapego e o distanciamento que o dramaturgo não-ator tem ao escrever uma peça,
ao elaborar personagens que só poderão ser representados por atores de verdade,
com seu ecletismo, diversidade, pesquisa e entrega. Para o ator/dramaturgo é
conveniente, fácil e confortável representar a si próprio, já que conhece,
melhor que ninguém, as intenções subjetivas de sua personagem e as inflexões
mais adequadas para cada “bife” que criou para si mesmo. O ator/dramaturgo
recusa o maior desafio que só os grandes atores almejam e perseguem: a
possibilidade de representar o outro, o diferente, o oposto de si, o estranho.
Assim, é comum o ator/dramaturgo
cair na armadilha fácil de querer transpor para o palco o discurso que seria
mais adequado a outro gênero literário, como a poesia, o conto ou o romance. Ou
pior: tenta levar para a cena – para sofrimento da plateia - o discurso que
melhor caberia em uma sessão de terapia ou análise freudiana. É o que eu chamo
de “dramaturgia do umbigo”.
Muito do que eu pude perceber
durante as duas leituras ainda acabou sendo ratificado ao final, no debate com
os próprios atores/dramaturgos. Ambos relataram que o que haviam apresentado
eram, originalmente, um conto ou escritos esparsos sem fins dramatúrgicos; e
que os adaptaram ou compilaram especialmente para o evento. A autora do
primeiro texto esclareceu que nem havia propriamente personagem em sua história
original – apenas a narradora – e que criou a segunda personagem (a que eu
disse que “entrou muda e saiu calada”) para agregar um viés mais teatral ao
texto.
Já o ator/autor do segundo
texto informou que “costurou num texto só” muita coisa que havia escrito antes.
Tendo feito já algumas experiências com dramaturgia coletiva em seu grupo de
teatro, aquela era a sua primeira experiência de construção de um texto
dramatúrgico individual. Também reconheceu que aquele era um conto, não um
texto teatral.
Questionado por alguém da
plateia sobre a ausência de diálogo e contracena entre personagens, disse
sentir-se à vontade para falar diretamente ao público, numa relação de
frontalidade que considera natural e instintiva para ele e para as novas
dramaturgias.
"GRANDE PROBLEMA" Duas outras colocações do
ator/dramaturgo no debate corroboram minha postura crítica em relação a grande
parte da produção dramatúrgica contemporânea, que parece insistir em prescindir
do trabalho de um dramaturgo de ofício. Ele afirma que escreve para si mesmo e que
a maioria do que escreve, ninguém vê; e que quando é o ator que lê o que ele
próprio escreveu (para o palco) “já se elimina um grande problema”. Ou seja:
ver outro ator dando vida ao seu texto, nem pensar!
O dramaturgo de ofício, por
mais que defenda a integridade de seu texto ante diretores, produtores e
atores, sabe que seu texto não é nada sem o concurso desses outros
profissionais do teatro. O autêntico dramaturgo, nunca escreve para si mesmo,
porque sabe que seu texto não existe sem atores que o digam diante de uma
plateia. Por isso, o verdadeiro dramaturgo é movido pelo desapego, tão
necessário a uma arte de natureza intrinsecamente colaborativa como o teatro –
em oposição ao individualismo natural e característico dos demais gêneros
literários.
Por tudo isso, não hesito em
recomendar aos atores que queiram se expressar através do teatro, que o façam –
até por respeito ao seu próprio ofício de ator – essencialmente como atores. Se
querem escrever, outros gêneros literários os acolherão simultaneamente, sem
prejuízo de sua atuação em cena. Mas, se desejam escrever para teatro, publiquem
seus contos e poemas em livros; discutam seus traumas e frustrações na terapia;
procurem conhecer as regras e técnicas específicas do ofício dramatúrgico (até para
subvertê-las); reabilitem os diálogos; e – especialmente - escrevam peças para
outros atores.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Como cortar a cabeça de um dramaturgo (e outras)
Para reduzir os custos de seu próximo espetáculo, o produtor
não hesita: a primeira coisa que ele corta é a cabeça do dramaturgo. E são
vários os métodos aplicados nessa decapitação. Pra esclarecer melhor como a
coisa funciona, listei alguns:
1.
MONTAR CLÁSSICOS
A lógica é simples: se o texto se tornou
clássico é porque já foi escrito. Então, pra que contratar um dramaturgo? Além
disso, já dever ter sido montado e testado, o que diminui os riscos do
investimento.
2.
MONTAR AUTORES MORTOS
Mas que tenham morrido há mais de setenta
anos, prazo determinado por lei para que uma obra caia em domínio público e o
produtor não precise pagar direitos ao autor ou a seus insaciáveis herdeiros.
3.
ACUMULAR FUNÇÕES
Alguns produtores fazem, eles próprios, adaptações
de obras que desejam produzir, evitando ter que pagar pelo trabalho
profissional de um dramaturgo adaptador. Também é comum que diretores façam
isso, especialmente quando são também os produtores, acumulando, assim, três
funções primordiais em um espetáculo: dramaturgia, produção e direção.
4.
FAZER ADAPTAÇÕES LIVRES
É a forma mais comum de fugir a duas
responsabilidades: pagar direitos autorais e contratar um dramaturgo. É um dos
métodos preferidos por grupos e companhias que adotam os chamados processos
colaborativos na criação de seus espetáculos: apropriam-se de um texto
literário (ou de uma bula de remédio, dependendo do grau de contemporaneidade
da proposta), reúnem elenco, diretor, o psicanalista do diretor e mais alguém
que esteja passando pela rua na hora e cada um chora suas pitangas pra
construir um texto-manifesto individual sobre a angústia e frustrações -que já
compartilharam previamente, em suas redes sociais. Pra fazer uma suruba
intelectual-deprê-carente-afetiva dessas, quem precisa de dramaturgo? Corta
fora!
5.
FAZER ADAPTAÇÕES TRANS E INTERMÍDIA
Se bombou no YouTube ou foi sucesso na tv
ou telona, por que não levar para o palco? Afinal – como no caso dos clássicos
– o filme já foi testado com o grande público, portanto, dá pra apostar que
também será sucesso no teatro. E, se o filme (ou desenho animado, no caso do
teatro infantil) já tem cenas e diálogos prontos, mais uma vez ninguém vai contratar um
dramaturgo! Ainda mais que já vai ter que desembolsar uma grana pelos direitos
de algum roteirista ou estúdio de cinema...
6.
COMPRAR PRONTO
É mais ou menos como o método anterior: o
produtor fica sabendo de algum texto que vai bem off Broadway ou nos palcos
londrinos e decide montar aqui o que é sucesso por lá. E um sucesso no
Exterior, mesmo que ele tenha que pagar pelos direitos, já vem com um certo
valor agregado – uma espécie de certificado de qualidade
maria-vai-com-as-outras que a contratação de nenhum dramaturgo brasileiro jamais
poderia agregar. Então, compra um texto pronto e corta o dramaturgo!
7.
JUNTAR PRA FAZER
Junte a vaidade inerente a qualquer artista e
explore-a em favor da criação de um espetáculo-cabeça. Faça o elenco trazer
objetos e figurinos de casa, mande-os improvisar cenas e situações inusitadas e
sem nexo, costure tudo sem linha, cole sem cola, e apresente o produto final
como uma criação coletiva em que todo mundo se acha autor, mas ninguém assina a
autoria no cartaz da peça. Se o dramaturgo não é ator e não está disposto a
participar de processo tão lúdico e construtivo, ele que vá se danar: que forme
seu próprio grupo, que se torne produtor, contrate diretor e elenco e monte o
texto que ele, sozinho, escreveu!
Nem todo produtor, é bom que se diga, age dessa forma.
Porque há outros caminhos, para cortar custos. Alguns desses gatos pingados que
ainda contratam dramaturgos costumam, entretanto, justificar a contratação do
profissional com uma recomendação bem (in)comum:
“- Vou montar A casa de Bernarda Alba, de Lorca, e quero que você me faça uma adaptação do texto cortando de quatro a cinco personagens: meu elenco é pequeno...”
Mas aí, as cabeças que vão rolar são as de outros
profissionais: as atrizes. E o produtor – mentor intelectual do crime – apenas precisa
de um cúmplice: não de um dramaturgo.
Resposta a um comentário
Recebi em meu e-mail, mensagem de um ator e produtor contrário aos
meus pontos de vista sobre dramaturgia contemporânea, também publicados neste
blog.
A mensagem se resumia a três frases, que transcrevo aqui,
literalmente:
“Enquanto se faz se vive. Uma reflexão é como um bom texto teatral. Você se tenta esconder quem faz .” (sic)
A despeito dos erros de ortografia e/ou digitação, me esforcei
para tentar compreender o pensamento dele e respondi a mensagem da forma transcrita
a seguir:
Gostaria de comentar suas observações sobre minha crítica ao
teatro contemporâneo - em particular, à dramaturgia contemporânea.
Sobre a simultaneidade do "fazer" e
o "viver" (se bem entendi o que você quis dizer), é justamente este
um dos maiores problemas que aponto no teatro contemporâneo. É muito comum que
os atores supervalorizem a sua experiência pessoal em detrimento da expectativa
do público. No palco, muitos atores dão o máximo de si (o que pode ser muito
pouco) para representarem apenas a si mesmos. É um processo que pode lhes ser
muito prazeroso, mas que é individual e íntimo: o público não compartilha
necessariamente desse orgasmo do ator. É como masturbação: quem goza é quem a
pratica. Um ou outro que assiste até pode sentir alguma excitação, mas o gozo
mesmo é do punheteiro.
Por isso, não dá pra aceitar que, via de
regra, "uma reflexão é como um bom texto teatral". Num palco, esse
tipo de reflexão, muitas vezes, não passa de uma punhetação pseudoartística ou
pseudointelectual. O bom texto teatral é de outro nível. Principalmente, porque
é o suporte básico para o ator exercitar e exibir suas competências e o seu
talento - e não as suas frustrações, angústias e neuroses.
PROFISSIONAIS OU AMADORES? Se o ator entende que seu trabalho é
interpretar a si próprio, obviamente, ele escolheu mal a profissão. Afinal, todos
nós, em nossas pobres vidas, já interpretamos a nós próprios todo o tempo, sem
que façamos disso um ofício ou profissão. Quantas vezes não “alugamos” nossos familiares
e amigos chorando nossas pitangas existenciais ou incompetências afetivas? Ou
pagamos para sermos ouvidos por nossos terapeutas? E não podemos ser
considerados, todos, atores, quando mentimos socialmente em nosso dia a dia?
Somos, certamente, atores amadores, já que não cobramos ingresso para que nos
vejam praticar nossas mentiras ou desfiar nossas lamúrias cotidianas.
A essência do exercício do ator é representar um papel, é ser quem
ele não é, é ser capaz de incorporar uma personagem e, mesmo atrás de uma
máscara ou de um nariz vermelho, ser reconhecido como falso, verdadeiro e
verossímil, ao mesmo tempo. E
isso é feito mediante um pacto mútuo, entre ator e espectador, em que o segundo
paga (nem sempre com dinheiro; essa é uma convenção simbólica) para ver o
primeiro.
A arte do ator, claro, pode ser colocada a serviço de outras
linguagens, como a Poesia. Mas, ainda assim, o ator em cena deverá estar
representando o/um poeta, não a si próprio. O texto, mais uma vez, é seu
suporte. Mesmo quando o ator é o próprio autor do poema que apresenta num palco,
ele deve – se é um ator de verdade – fazer o papel do poeta, nunca do ator que
é. Assim, se o texto é um poema, é estritamente um poema: o fato de estar na
boca de ator, num palco, não faz dele um texto dramatúrgico.
Em suma - parafraseando Pessoa - o ator é, antes de tudo, um
fingidor. E acho que o que está dito acima explica por quê.
(P.S.: Não tenho como comentar sua última frase, que não me parece
fazer qualquer sentido.)
segunda-feira, 15 de abril de 2013
sábado, 13 de abril de 2013
Vendendo o meu peixe
Quero aproveitar o espaço desse blog para também divulgar alguns dos meus textos dramatúrgicos inéditos, para que os leitores, democraticamente, façam sua avaliação crítica. A divulgação dos textos visa também, é claro, tentar provocar em produtores, diretores e atores um possível interesse por uma montagem. Se rolar, podemos negociar.

Pra começar, selecionei o meu texto curto Por que o espanto? (Ou: É proibido atirar nas placas),que, recentemente, foi um dos vencedores do projeto Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Ministério da Cultura e Centro Cultural Banco do Brasil/SP, onde aconteceu uma leitura dramática em fevereiro/2013.
Para conhecer o texto na íntegra clique aqui.
Em breve, outros textos inéditos e premiados também serão postados no blog.
Do fundo do baú
Revirando velhos arquivos em meu computador, encontrei um artigo que escrevi em 2002 (apenas dois anos depois da minha estreia como dramaturgo), e que cheguei a publicar não me lembro mais onde (acho que na Revista de Teatro, da SBAT). Reli, fiz algumas pequenas atualizações, correções de rumo e ortográficas, e achei oportuno republicar aqui, já que pouca coisa mudou nesses pouco mais de dez anos (além da queda do trema e de alguns hífens e acentos, claro)...
Os dramaturgos estão mortos
Os dramaturgos estão
mais vivos do que nunca. Claro, estou falando de Shakespeare, Nélson Rodrigues
e, talvez, Brecht. E, claro, falo também de muitos diretores e atores,
apologistas de uma dramaturgia própria, sem dramaturgos. O dramaturgo à moda
antiga, aquele que se senta diante de um papel em branco e escreve uma
história, esse já está em outra: mortinho da silva.
Antes de mais nada, não
quero apenas ressuscitar aqui uma nova/velha polêmica sobre o texto teatral;
sobre se o texto é ou não é teatro enquanto não vai parar na boca do ator em
cena; ou se o diretor é o verdadeiro autor da obra teatral; se o ator pode ser
também um autor da história que interpreta. Apenas quero defender o espaço de
atuação de um profissional tão importante no fazer teatro, como qualquer outra
peça desse complexo mecanismo.
Se, no cinema, o
roteirista é sempre chamado a escrever e reescrever uma história para adequá-la
ao orçamento do produtor, ou mesmo às ideias do diretor, o mesmo não ocorre no
teatro, onde diretores, atores e até figurinistas se sentem no direito de meter
o bedelho e recompor diálogos e sequências cênicas, sem qualquer consulta ao
autor da história.
Há diretores que afirmam
taxativamente, que só encenam autores mortos, porque estes não podem reclamar.
Felizmente, há exceções. Conheço um diretor que prefere montar autor vivo. “Um
autor vivo ao alcance de um telefonema é a minha melhor fonte de consulta e
esclarecimentos”, justifica.
Entretanto, o processo colaborativo
– ou qualquer outra denominação similar sob a qual se abriga – envolvendo
diretor, elenco e, às vezes, diretor de arte, cenógrafo, figurinista ou diretor
musical, quase sempre ignora a existência de um profissional do texto: o
dramaturgo.
Após lerem todas as
teorias sobre teatro, participarem de todos os workshops sobre técnicas de
artes cênicas, estudarem os clássicos gregos à exaustão, diretores e atores, em
sua maioria, não conseguem pôr em prática o simples contar histórias e, quando
o pano é aberto, o que se vê é, quase sempre, o privilégio da forma em prejuízo
do conteúdo. Espetáculos feéricos, meticulosamente marcados e coreografados,
com cenários dinâmicos e grandiosos –
ou, ao contrário, palcos (e, às vezes, atores) inteiramente nus, têm sido a
tônica do que se vê em cena. E a crítica especializada lhes tece loas de experimentalismo
revolucionário, estética vanguardista e discurso contemporâneo.
VELHOS E NOVOS Todas as experimentações
recentes, porém, são mais plásticas, visuais. A linguagem, no Brasil,
praticamente não se renova desde Nélson Rodrigues, Guarniéri ou Plínio Marcos.
Encenadores e produtores não se arriscam com novos textos e, principalmente,
novos autores. Preferem regurgitar o que já foi renovador um dia. No teatro
infantil então, a falta de ousadia é gritante. Basta ver a programação de
teatro de qualquer metrópole cultural do país, para se constatar a
predominância de adaptações de contos de fadas e clássicos da literatura
infantil, roubando ainda, aos pais, o doce hábito de contar histórias à
cabeceira de seus filhos, como faziam os pais de antanho.
Prescindir de se ter um
dramaturgo à mão pode ser também conveniente à produção, por razões econômicas
(voltarei a esse tema oportunamente.). Sai mais em conta montar uma história de
domínio público, que contratar um dramaturgo para escrever uma história
inédita. Adaptar um clássico também é coisa que qualquer diretor pode ir
fazendo, durante os ensaios, com a ajuda dos atores.
Outro recurso usado é o
de comprar direitos de autores estrangeiros, apostando em que o que é sucesso
na Europa ou em Nova York, vai estourar também aqui. Nesse caso, paga-se um
tradutor a preço fixo por página e evita-se o risco de investir em um autor
nacional pouco conhecido. Nesses casos, não seria um despropósito pensar que
falta a quem escolhe textos para encenar, qualquer embasamento literário ou
artístico mais específico, usando, para tal, critérios exclusivamente
econômicos e mercadológicos.
Não se pode deixar de
fazer uma referência aqui, ainda, à caçula das dramaturgias: a dramaturgia do
ator. Dramaturgia do ator, pra quem não sabe, é aquele processo de criação em
que o diretor dá um mote (ou nem isso) e o ator se desdobra em improvisações
para criar situações, cenas, coreografias e diálogos que depois, no programa
impresso e no cartaz, não recebem crédito ou são assinados pelo diretor. Grande
parte dos atores, sobretudo os mais jovens, adora o processo, e, com
impressionante estoicismo, sente-se privilegiada por ter participado da
criação. Atores veteranos, no entanto, se ressentem da ausência de textos
prontos, tramas minimamente elaboradas, personagens definidas (mas não
concluídas) que lhes permitam o exercício menos visual/coreográfico e mais
psicológico/interior de interpretação. Em trabalhos construídos coletivamente, já
vi atores se recusando a dizer um texto por não concordarem com o que o
dramaturgo escreveu, mesmo tendo este apenas dado forma às improvisações
realizadas pelo próprio elenco. Também há situações em que o ator não sabe o
que é ou como empregar adequadamente um pronome oblíquo, desconhece a função de
um advérbio e não tem a menor idéia do que seja um verbo defectivo, mas julga
que é mais capaz de escrever um texto que um dramaturgo. Situações inversas –
em que um dramaturgo se sente o único ou o melhor ator para o seu texto - , embora
existam, são bem mais raras, mas tendem a se tornar mais comuns por uma questão
de sobrevivência do profissional.
Talvez
nem fosse necessário dizê-lo, mas tudo o que foi dito acima é uma generalização
acerca de observações feitas por mim. Há exceções, honrosas exceções, mas
alguns encenadores e atores precisam entender que nem sempre um dramaturgo quer
competir com eles pela autoria do espetáculo. Muitas vezes, o que ele quer é
apenas sobreviver ou ter assegurado seu espaço de trabalho, como qualquer
profissional. E deve lutar por esse espaço como diretores e atores lutam pelos
seus. Nada impede, entretanto, que essa luta seja pautada pela generosidade e respeito
profissional recíprocos. Cada qual no seu cada qual.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Dramaturgia: nem Poesia, nem terapia
Confesso que tenho ido pouco ao teatro, de uns tempos para
cá. Mesmo sendo um dramaturgo.
É que sinto algum desconforto (não me refiro, aqui, ao
desconforto inerente a toda obra de arte que se preze) com quase tudo que vejo
e ouço em cena, no chamado teatro contemporâneo. Ou que é celebrado como tal.
Por isso, senti uma necessidade de me posicionar pública e
oficialmente, compartilhando com mais pessoas aquilo que quem me é mais próximo
já sabe.
Assim, tive o cuidado de relacionar alguns aspectos comuns a
alguns espetáculo que vi, críticas elogiosas que li, ou mesmo, entrevistas de
alguns dramaturgos, atores e diretores. A carapuça – como convém a esse tipo de
análise – é genérica e democrática: quem quiser que a vista.
O indivíduo morreu. E morreu duplamente: como autor e como
personagem. Vejo predominar uma dramaturgia dita coletiva, participativa,
colaborativa, ou seja lá que nome se adote. O indivíduo autor, capaz de
escrever sozinho um texto que encenador e atores possam levar a um palco,
tornou-se uma aberração anacrônica e inaceitável. O resultado, salvo raríssimas
exceções, é uma dramaturgia caótica, sem sentido, sem lógica, sem unidade. Com
várias cabeças pensando e criando um texto, este, muitas vezes não se amarra e
nem fecha. É claro que essa pode até ser uma possibilidade ou uma intenção real
do espetáculo.
Mas, quando a fórmula se repete, também se desgasta. E tudo fica tediosamente igual e previsível.
Mas, quando a fórmula se repete, também se desgasta. E tudo fica tediosamente igual e previsível.
MAIS CADÁVERES Se o indivíduo autor não existe mais – ou, pelo menos, já está
no corredor da morte – a personagem não fica atrás. Na maioria das vezes, o que
vemos no palco são apenas atores dizendo textos fragmentados e, quase sempre,
autorais – já que eles são parte do coletivo que construiu a “dramaturgia” do
espetáculo. Todos querem dar sua cota para a dramaturgia, esquecendo-se que a
maior cota que um ator pode dar é na sua atribuição específica: representar, dar
vida às palavras que pertencem a outros. (Os “outros”, no caso, não são apenas
os autores, mas, principalmente, as próprias personagens.)
Com autor e personagens mortos, o que vemos nos palco são apenas
atores interpretando a si mesmos e tentando convencer o público de que não são
quem são.
Nos raríssimos casos em que há personagens em cena, o que
não há é sua a personalidade visível, a identidade única de cada uma. Todas são
iguais. O que muda é somente a angústia ou a neurose de cada qual. É
impressionante como são todas cúmplices e solidárias entre si: todas riem
juntas, choram juntas, têm o mesmo vocabulário, os mesmos sentimentos, expectativas,
inseguranças, as mesmas reações físicas, cacoetes, prosódia. Se a dramaturgia não se deu ao trabalho de
construir uma personagem, muito menos o fez o ator – mais empenhado em nos
mostrar o que ele chamará de “a dramaturgia do ator”.
Com “personagens” tão homogêneas e pasteurizadas, é normal
ainda que tudo convirja para um só ponto: a mesmice. Assim, fica difícil haver
reviravoltas na trama – quando existe trama - , rupturas, conflitos. Os únicos
conflitos possíveis são os conflitos íntimos e pessoais da personagem que o
ator quer nos convencer de que não é ele próprio. São, no dizer de experiente
diretor de teatro das antigas, “amebas com angústia”. Se uma “personagem” é
traída, sempre haverá outra que lhe será solidária e lhe contará que também já
passou por isso. E ambas chorarão – ou rirão – juntas da situação.
Personagens não morrem, não chutam o balde ou optam por
outro caminho torto. Vilões? Nem pensar! Não há lugar para eles no palco – só
na vida real.
Mas quem quer falar da vida real? A dramaturgia
contemporânea não quer falar do que acontece no país ou no mundo; ou de
qualquer coisa que exista para além da cabeça do ator/dramaturgo ou fora de
suas redes sociais.
Há mais um morto nesse enterro coletivo (o trocadilho não
foi intencional, juro!): o diálogo. Ele está morto não só na sua elaboração técnica,
como em sua essência. O que prevalece é o coro, em configurações diversas e dissimuladas.
As personagens não conversam, não argumentam, não se opõem: apenas fazem coro
entre si, como um animado jogral de escola. São pequenos solilóquios e grandes “bifes” confessionais que se
alternam e que, quase sempre, nem fazem qualquer conexão entre si. Porque os
atores não querem dialogar entre si, mas, o tempo todo, com o público!
PAREDE DEMOLIDA Alguns dramaturgos contemporâneos até admitem essa
preferência em se relacionar diretamente com o espectador. Pra isso,
desconsideram de cara a quarta parede, e colocam seus atores fazendo divagações
ou discursos particularmente voltados para as primeiras fileiras da plateia -
como se o público fosse seu terapeuta de plantão e penico para todas as suas
angústias, carências e frustrações. Uma conversa fortuita entre taxista e
passageiro, por exemplo, tem mais qualidade artística ou conteúdo filosófico
que muita coisa que é levada ao palco, hoje em dia. Mesmo assim, nem sempre
funciona, quando transposta para o palco, porque não se leva junto a
autenticidade ou verossimilhança das personagens originais.
Muitos dramaturgos até confirmam não ter sequer interesse
por uma narrativa, mas têm uma obsessão pela linguagem e pela forma lírica. Ou
seja, não percebem que também há uma grande diferença entre Poesia e
Dramaturgia – embora os dois gêneros possam, até, convergir ocasionalmente.
Não sei se explica muita coisa, mas acho sintomático que,
além do mais, a dramaturgia contemporânea é toda feita por atores, diretores e
dramaturgos jovens para plateias predominantemente jovens. Comumente, não vemos
atores mais velhos em cena. Parece não há lugar para personagens idosas no
teatro contemporâneo – como se os mais velhos sequer fizessem parte da nossa
sociedade, da vida real. Alienação ou mera insensibilidade? Acho que ambas, mas
não há como recomendar aos jovens que amadureçam logo. (“Jovens, envelheçam!” –
dizia Nelson Rodrigues, em vão.)
Minhas impressões acima dizem respeito, claro está, ao
teatro feito pelas elites e para as elites. O grande teatro das comédias
populares que enchem alguns teatros, não se enquadram nessa análise. E nem
quero discriminá-las, no entanto, porque acho que há público para todos os
gêneros e propostas. Mas o grande teatro popular não promete nada além de umas
risadas e não se arvora a lançar ditames sobre o que é contemporâneo ou
experimental. Quem escolhe esse caminho, deve estar preparado para ser bucha de
canhão.
(E olha, que eu nem falei sobre o total descaso para com a
dramaturgia para o público infantil!...)
Marcadores:
dramaturgia contemporânea,
teatro contemporâneo
Local: Belo Horizonte, MG, Brasil
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